O tipo da coisa


14/12/2009


Ex-governador de calça curta

Por essa saia-justa o Doutor Paulo Souto não esperava passar.

E foi logo em Miguel Calmon, a cidade que naquela região é carinhosamente chamada de “Calça Curta”.

 

O ex-governador está fazendo uma campanhazinha de leve para voltar ao Palácio de Ondina.  Deve ser boa a vida de governador! Todo ex quer voltar! 

 

Então, no último final de semana, lá se foi o Doutor Souto voando pelo sertão. Baixou em Jacobina, depois em Miguel Calmon, onde foi obrigado a ler uma faixazinha incômoda logo na entrada. 

 

“Gostou da estrada, Doutor Paulo Souto?”, indagava a faixa. Ô pessoalzinho escroto esse de Miguel Calmon. Ô povinho ingrato, pensou o ex-governador.

 

 

Não, não foi o povo, até porque não tinha como todo o povo fazer a faixa, nem como todo o povo subir no poste para botar a bendita (ou maldita) pergunta. "Deve ter sido um pau-mandado", pensou.

 

Bem, não importa a autoria, o fato é que foi uma bela sátira, uma fina ironia, que os políticos precisam ler para baixarem a bolinha. Faixas não existem só para bajular, mas também para meter o pau.    

 

Meteu o pau, foi isso que a faixa fez. Meteu o pau e soltou o veneno da cobra. 

 

A faixa era uma referência à rodovia estadual BA 131, que liga Miguel Calmon a Jacobina, um trecho pequeno, de cinco léguas, que há décadas era prometido e empurrado com a barriga pelos governadores , entre eles o Doutor Souto.

 

Em junho deste ano o atual governo do estado entregou a obra. E fez a maior zoada, festa, placa, foguete, marquetingue e a zorra toda. E aí os governistas de Miguel Calmon ficaram esperando Souto ir lá. 

 

E Souto foi. Talvez desavisado. E, pela reação dele, a tal faixa pegou o ex-governador de calça curta, ou seja, de surpresa, desprecatado, desprevenido. Pelo jeito, a pergunta ficou pinicando o tempo todo.

  

“Gostou da estrada, Doutor Paulo Souto?”

 

Não, ele não gostou. Não, não, não, não, mil vezes não.

E no encontro que teve com os aliados locais, ou seja, umas 100 pessoas, o Doutor Souto se disse abraçado por todo o povo, mesmo que ali não estivesse nem 0,5% da população.

 

Sinto que esse abraço carinhoso é um pedido de desculpas pela ingratidão de poucos aqui nessa cidade. Essa emoção suplanta em muito, em muito, a grosseria da faixa da entrada da cidade, que eu quero esquecer por que sei que ela não representa o sentimento do povo dessa cidade”.

 

Resta saber se a opinião do povo é aquela da faixa ou a do abraço do ex-governador naquela reunião. É uma dúvida que só poderá ser respondida nas urnas, em outubro de 2010

 

Enquanto outubro não chega, estou pensando em ir conhecer a cidade de Miguel Calmon, que ainda não tive o prazer de conhecer, mas sempre quis visitá-la. Nos babas da AABB de Salvador, por exemplo, tinha uma galera gente boa de lá.

 

Eles tinham um time cujo nome era “Calça Curta”, em irreverente homenagem à cidade. Também na AABB de Salvador é realizado todo ano o Encontro de Miguel Calmon na capitá.

 

Esse apelido Calça Curta eu julgava ser referente a algum delegado calça curta. Mas não, calça curta era uma brincadeira que a turma de Jacobina fazia com os de Miguel Calmon. Eles (os jacobinenses) diziam que vestiam calça comprida, enquanto os vizinhos calmonenses vestiam calças curtas, segundo eles.

 

Era um jeito de chamá-los de tabaréus da roça, o que era uma injustiça, gozações de vizinhos, hoje já superadas e enterradas.   

 

Aliás, segundo me conta Mazinho, um calmonense nascido no distrito de Mucambo, o lugar passou até a fazer marketing com essa expressão. Tanto é que tem time, banda e festa como esses termos. Uma delas é o Arraiá Calça Curta, que é uma das melhores e mais badaladas festas juninas da Bahia.

 

Então, em junho eu vou lá, de calça curta, de bermuda, chinelão e chapéu tomar um licor e conhecer aquela gente boa. Se eu encontrar uma faixa perguntando “Gostou da estrada?”, vou dizer que sim (se ela estiver boa) ou não (se estiver ruim), mas não vou me zangar com uma pergunta tão simples.

 

Afinal, todo polítco, todo candidato a governador deve gostar de ver uma estrada boa , ainda que tenha sido feito por adversário, e mesmo que ele (candidato) só ande de avião. 

Escrito por Marcelo às 20h51
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11/12/2009


Novo tipo de assalto em Brasília

Escrito por Marcelo às 17h45
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Escrito por Marcelo às 17h44
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Viva a "santíssima" trindade

 

Escrito por Marcelo às 17h43
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Fraldas e políticos

Essa vale a pena.

Porque a "pulítica" é pequena.

 

Escrito por Marcelo às 17h41
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Será a solução? Será que sim? Será que não?

Escrito por Marcelo às 17h39
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06/12/2009


Oração da Propina

Cuíca da Asa Sul

 

I
Valei-me Nossa Senhora
Do Reino da Pedra Fina,
Tanta meia recheada
Com o níquel da fedentina!
No pisotear da grana,
Reza em coro a ratazana
A Oração da Propina.

II
São Leonardo Imprudente,
Orai até não ter jeito,
Entupa a roupa de notas,
Os pés esquerdo e direito,
E, se não couber na meia,
Peça a Santa Eurides Feia
Pra socar no meio dos peitos.


III
São Benedito Domingos,
Vá chamar Santo Odilon,
Que São Brunelli já foi
Se fartar do que é bom,
Diga a Santa Eurides Brito
Que movimente o cambito
E me empreste o califon.

IV
Me proteja, São Durval,
De tudo quanto é torpeza,
Filme o pântano distrital
(Peixe grande e miudeza),
Tore o podre na raiz:
Desde os tempos de Roriz
Que é grande a safadeza.

V
Santo Benício Tavares,
Que não pode nem andar
Mas tem duas mãos muito ágeis
Para o dinheiro pegar,
Num barco agarrou sem dó
Uma índia caiapó,
Deus me livre de ir lá!

VI
Orai, santos distritais,
rogai pelos penitentes:
São Roriz e São Arruda,
São PO e São Valente,
Tenham piedade do povo.
Viva São Pedro do Ovo,
Que bota o ovo na gente!

VII
Que o Santo Rogério Ulisses,
Lá de São Sebastião,
Fale com São Maciel
Pra me emprestar R$ 1 milhão
Que veio de Santa Cristina,
Uma santa muita fina,
Protetora de ladrão.

VIII
E se eu fosse São Arruda
Não largaria a questão:
Não foi ele quem inventou
Esse tal de mensalão.
Faz tempo que as empresas
Vivem nessa safadeza,
Mantendo a corrupção.

IX
Mensalão já teve em Minas
E no plano federal,
No Rio Grande do Sul
E até no Pantanal.
Mais rasteiro que o chão,
Só faltava o mensalão
Do Governo Distrital.



X
Santo Omézio, São Lamoglia
E Santo Roberto Giffoni,
Que os anjos toquem trombetas
Em mais de mil microfones
E mandem neste Natal
Pra cada lar distrital
Uma festa de panetones!

 

Inspirado em Cuíca de Santo Amaro, Cuíca da Asa Sul é um dos pseudônimos de Miguel Lucena, um candango paraibaiano, poeta, cordelista, advogado, jornalista e delegado da Polícia Civil no DF. O blog dele é http://miguellucena.zip.net

.   

 

 

 

Escrito por Marcelo às 10h08
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03/12/2009


Eu e o Albatroz do Ubaldo

 

De tanto o tio Tote, um grande escritor, recomendar, acabei correndo atrás d’O Albatroz Azul. Tote é o escritor Antônio Torres. A bem da verdade, ele só me recomendou uma vez, mas uma dica só, vinda dele, já é um tanto, já é muito.

 

“Vá correndo pegar O Albatroz Azul do João Ubaldo”, ele disse por correio eletrônico. “É fabuloso, em todos os sentidos da palavra”. Então, fui, corri ali na Laselva, segurei o desgramado pela orelhas, para devorá-lo todinho, de uma vez.

 

Peguei o danado na Laselva do aeroporto. Mas, vou dizer uma coisa: eu quase desisto do dito-cujo, pois foi uma empreitada difícil!

 

Bem, ao entrar na selva (nome da livraria em português), fui logo a um rapazinho fardado e perguntei se o Albatroz de João Ubaldo já havia chegado. Pelo jeito, ele não sabia, mas sabia quem poderia saber. Então pediu para eu falar com uma daquelas moças, e apontou para duas meninas uniformizadinhas, que já estavam com o sorrisinho de aeroporto (sorriso de lagarto manso e murcho).

 

 

 

 

 

E lá fui eu até as mocinhas fardadinhas. Meti-me por entre elas, para dizer - de uma só vez às duas - o que procurava. Perguntei se tinham O Albatroz de João Ubaldo, assim mesmo, como já íntimo do criador e da criatura. Pelos olhares que trocaram, vi que as moças não sabiam de Albatroz nem de Ubaldo. Eu é que tinha de dizer os nomes por inteiro, mastigadinhos. 

 

- O nome do livro é O AL-BA-TROZ-- A-ZUL – eu falei enfática e pausadamente. - E o autor é JO-ÃO—U-BAL-DO- - RI-BEI-RO.

 

- E o senhor sabe... - uma das meninas iniciou a pergunta e deixou a outra completar.

- ...Qual é a editora?

 

Por um instantezinho de nada, meu lado ranzinza se queixou ao meu lado Jó: “É, as livrarias colocam atendentes que não sabem nada. Já não basta dizer só o título, nem o título junto com o autor, agora eles querem saber também a editora. Daqui a pouco vão pedir o número do registro do livro na Biblioteca Nacional! Ora, eu sei lá qual é a editora? Ainda mais a de João Ubaldo, que, segundo dizem, mudou recentemente!”

 

- Não, não sei – respondeu minha parte Jó.

- Vamos ver ali no terminal.

 

E fomos nós três até o bendito terminal de pesquisa e consulta, o oráculo, a última palavra. Eu fiquei um pouco atrás, uns dois metros, aguardando bem na minha. Lá entre elas, uma ficava teclando e a outra palpitando. E tome-lhe tecla. Toc, toc, toc, enter. Toc, toc, toc, enter. E nada de acharem Albatroz, nem Ubaldo, nem nada.

 

- Qual é mesmo o título?

- O AL-BA-TROZ... A-ZUL.

 

E tome-lhe tecla. Toc, toc, toc... enter. E tome-lhe busca. Toc, toc, toc, toc... enter.

 

- Acho que não é com “u” - murmurou a auxiliar no ouvido da que digitava.

 

Meu lado ranzinza fez a leitura labial e comentou com Jó: “Só faltava essa agora, não saber o que é albatroz, não saber como se escreve, ela deve estar escrevendo 'ualbatrois', ou 'luau' alguma coisa, só pode ser isso!” E um Jó em mim contemporizava: “Calma, calma, espera, já, já ela acha”.

 

- Põe “azul”, procura por “azul” - peruou a colega.

 

Toc, toc, toc, toc...enter.

 

- Não tem - disse a tecleadora.

- É, não tem – concordou a auxiliar.

- Vamos puxar pelo autor.

- Moço, como é mesmo o nome do autor?

- João Ubaldo Ribeiro – respondi impaciente e fui eu mesmo procurar na seção Literatura Nacional.

- Põe “João” - sugeriu a colega, elas duas lá e eu do outro lado.

 

Toc, toc, toc, toc. Jota-ó-á-ó-til, João, quatro toques e enter.

 

- Hummm, o que não falta é escritor João; João de quê, vai lá perguntar ao homem, que ele já tá pra nos matar.

 

- É João de quê, moço? - a auxiliar foi a mim, perguntar pela milésima vez.

O problema, eu desconfiei, era o “Ubaldo”. Só podia ser isso! Elas não sabiam como escrever Ubaldo, a verdade era essa. Colocavam Ubaldo com “h” no início ou “u” no meio - ou as duas coisas.

 

- Pede para ela pesquisar por Ribeiro, parece que tudo no aeroporto é com o último sobrenome – eu falei, com ironia, manuseando um livro após outro.

 

A auxiliar voltou lá para o terminal, para a interminável pesquisa delas.

 

- Põe aí “Ribeiro”.

- RI [toc, toc]...BEI [toc, toc, toc]...RO [toc, toc]...enter.

 

 

E no exato momento em que eu achei o desgramado do Albatroz, e o puxei com força e raiva, a tecleadora pulava de lá.

- Aaaaaachei! JOÃO UBALDO RIBEIRO, logo vi que era com “u” e com “l”.

 

 

 

Então dirigiu-se a mim com cara de santa vendedora, sorrisinho de aeroporto, perguntando se eu também não queria levar o Sargento Getúlio, A Casa dos Budas Ditosos, Viva o Povo Brasileiro e coisa e tal. Eu agradeci a atenção, abri um sorriso de lagarto, já na fila onde ia morrer em quarenta e dois pilas.

Já no carro, pensei: por que não comprei pela Internet? Lá você mesmo procura, pesquisa, é tudo fácil e até mais barato. Quando cheguei em casa, entrei na Internet, fui à loja virtual da Laselva. O Albatroz estava lá bonitinho, por trinta pratas.

 

Então, peguei o infeliz pelas orelhas e só o larguei lá pelas cinco da manhã. Devorei-o de cabo a rabo. Ao final da leitura, não fiquei entre a vida e a morte, como o protagonista do livro, um tal Tertuliano Jaburu, mas cheguei à triste conclusão que, ao contrário de Raimundo Penaforte (neto de Jaburu), eu não nasci com o monossílabo virado para a lua.

Escrito por Marcelo às 18h13
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25/11/2009


As baianas solteironas

O que é que a baiana tem?

A pesquisa é da FGV, feita em 2005.

Foi publicada há quatro anos pela revista Veja.

 

Para ler a reportagem, clique aqui.

 

Escrito por Marcelo às 15h02
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06/11/2009


Bahia, a viagem preferida do brasileiro

O Ministério do Turismo divulgou quarta-feira uma pesquisa que aponta:

 

A Bahia o destino preferido dos brasileiros.

 

Uma pergunta era: “Para onde você mais viajou nos últimos dois anos?”

 

Resultado: Bahia 11,6% , São Paulo com 10,9% e Rio de Janeiro 9,4%.

 

A outra pergunta: “Para onde quer ir nos próximos dois anos?”

 

Resultado: Bahia 21,4% , Pernambuco 11,9%, Rio de Janeiro 11,3% e Ceará 9,8%.

 

A pesquisa ouviu 2.500 pessoas em todo o país.

 

Cerca de 80% delas viajam por conta própria e 20% com agências de turismo.

 

A pesquisa indica que cada turista gasta em média R$ 2,2 mil por viagem. 

 


 

Escrito por Marcelo às 18h19
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05/11/2009


O Velho Chico

Ê, Velho Chico!

Será que a transposição vai dar água de beber ao povo?

"É um lado carente dizendo que sim".

"É a vida da gente dizendo que não".

Muito verbo e muita verba por água abaixo. 

 

Escrito por Marcelo às 17h55
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Alô, Silvio!

Desta sexta até domingo, Silvio Carvalho faz o show Navegante, no Teatro Martim Gonçalves, Escola de Teatro da UFBA, ali no Canela.

Silvinho é compositor e intérprete, educador, contador de histórias, o diabo a quatro.

 

É um daqueles amigos de longa data, boa prosa e boa praça, aquele humor sutil, aquele jeito simples e sincero de ser. 

Quer ouvir algumas de suas belas canções? Clique aqui.

 

E não perca o show. Desta sexta a domingo, sempre às 21h. Vá, você vai gostar.

 

 

Escrito por Marcelo às 17h08
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05/10/2009


Bode expiatório e cabras cegos

Na Bahia, a nova polêmica dos politiqueiros envolve brincos nas orelhas de cabras e bodes.

 

É que o governo estadual tem um programa chamado Cabra Forte, que distribuiu bodes e cabras para criadores no sertão.

 

Esses caprinos ganharam um brinco, um brinquinho na orelha, no qual aparece o nome do governo (e não do governador).  

 

 

Mas aí os cabras machos da oposição rodaram a baiana, subiram nas tamancas e estão fazendo uma zoada dos diabos, moinhos de vento, tempestade em copo vazio.

 

No domingo, o jornal Folha de São Paulo rezou a missa encomendada, publicando matéria contra o governador – matéria que agradou em cheio aos “Demos” e “Gedéis”.   

 

A ladainha é que o brinquinho nas orelhas das cabras e dos bodes caracteriza propaganda eleitoral, vejam só que imbecilidade.   

No tempo de ACM, a propaganda do governo - em rádio, tv, jornal e os cambau - mostrava a imagem dele, a fala dele.

Chegou-se ao cúmulo de criar o slogan "Ação, Competência e Moralidade", com as iniciais A-C-M em destaque.       

 

Mas qüá, hômi! Como dizemos nós baianos, “me faça uma garapa”, ou seja, “me poupem”.

 

Estão fazendo do governador um bode expiatório dos problemas da Bahia, como se eles começassem agora.

 

Até dezembro de 2006, a Bahia era a Terra da Felicidade. De lá para cá, virou o quinto dos infernos da violência, que certamente foi criada pelo atual governo...

 

 

Escrito por Marcelo às 20h32
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02/09/2009


Pós-Sarney, Pré-Sal

 

 

Escrito por Marcelo às 19h57
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31/08/2009


É muito W para uma cidade só

Se havia algo que me intrigava em Brasília até o dia da reforma ortográfica era o diabo do dáblio, pois aqui nós temos tanto W que parece coisa de Internet – dáblio-dáblio-dáblio-brasília.gov.br. 

 

Tomando-se como base o corpo do avião, o glorioso Plano Piloto, de um lado você tem a parte Leste, com seus eixos começando com a letra L; do outro lado tem-se a parte Oeste, com os eixos começando com a letra W. 

 

Ou seja, por um lado Brasília é L, de Leste. Mas, pelo outro lado, Brasília é W. Porque Oeste é West, sacou? Não é uma coisa tipo wonderful? E tome-lhe W1, W2, W3, W4, W5...É W que não acaba mais. 


Como se não bastasse a banda W do Plano Piloto, ainda temos duas regiões administrativas do DF que possuem W na sigla: Sudoeste, que é SW (de South West), e Park Way, que é PW. E ainda vem aí o Setor Noroeste, que com certeza terá a bigla NW.



É muito W para uma cidade só. É ou não é? E o pior é que, além de ser um maldito fruto de palavras estrangeiras, o diabo do dáblio até esses dias “não existia” no nosso alfabeto oficial, embora fosse (e seja) usado a torto e a direito.



Aí veio a reformazona - que uns chamam de reforma pornográfica, mas que eu prefiro chamá-la reforma dabliográfica - e repôs o K, o Y e o W.  



Quando esse W vinha numa siglazinha inocente, pura e besta, como por exemplo o kw, tudo bem, vá lá que seria muito estranho nós aportuguesarmos a palavra quilowatt para quilouate, embora a orientação sempre fosse aportuguesar, como fizemos com as palavras uísque e sanduíche, que eram escritas com w em sua língua de origem.



Mas Leste é Leste e Oeste é Oeste, uai! Em Brasília, Minas e Bahia, oxente! Aliás, Oeste é mil vezes mais familiar que West. Então, por que usar o W e não o O? E já que era para estrangeirizar, por que a parte Leste, que é East em inglês, não é E?

 

Lembremos que já havíamos abrasileirado Far West para faroeste (Faroeste Caboclo, por exemplo, é título de uma musicazona de Renato Russo, aquele caboclo cantador e compositor que foi criado em Brasília).



E o Sudoeste, hein! A gente usa Sudoeste, escreve Sudoeste, fala Sudoeste (e até Sudoca), mas o nome oficial parece que é mesmo South West, pois a sigla é SW. Pode reparar na sudoestada, tem sempre um SW. Só que a sigla de Sudoeste, em português, é SO - que, aliás, é mais sonora, mais bonita, mais poética.

Além disso, para um bairro cheio de gente solteira, gente só, morar SO seria mais que uma opção de morada, seria um estilo de vida, um estilo de morar, um charme, uma marca.


- Eu sou SO.

- Eu vivo SO.

- Antes SO do que...



O hino do nosso querido e amado Sudoca seria a música "Preta, Pretinha", de autoria de Moraes Moreira e eternizada pelos Novos Baianos. "Só, só, somente só/ Assim vou lhe chamar/ Assim você vai ser". Não seria legal?



E se a sigla SW fosse SO, é certo que tudo que hoje é W seria O. Olha só que beleza: o eixo W2 seria O2, que com certeza seria uma via de ar puro, puríssimo, com muito oxigênio. Já a famosa W3 seria a O3. Em vez desse www, teríamos O2, O3, O4, O5...



Mas, pensando bem, talvez seja melhor mesmo o W. Um número elevado de O em Brasília seria um prato cheio para os bobós que a esculhambam. Iriam chamar Brasília de "Capital do Ó", "Freguesia do Ó". "Essa cidade é um Ó". "É o Ó do borogodó" e por aí vai.



E esse baiano candango aqui botaria a mão no queixo e diria: "Ó paí, ó!" Então, não vou mexer com isso, não. Deixa quieto. Eu jogo a toalha, neste week-end, caindo no walk-over, tomando WO num WC do South West ou da W3 South.

 



Escrito por Marcelo às 15h58
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Por que baiano "come água"?

“Comer água”. Essa enigmática expressão que nós baianos usamos me veio à cabeça ao saber de uma pesquisa do Ministério da Saúde que mostra Salvador como a capital com maior consumo per capita de álcool do país, uma média de 24,9%.

Curiosamente, na Terra da Felicidade (capital do estado da alegria), um quarto da população gosta de tomar umas. É que não se bebe só por alegria e felicidade. Come-se água, também, para esquecer os problemas – que não são poucos.

Salvador tem quatro bairros que, se fossem países, estariam entre os mais ricos do mundo. Por outro lado, os outros cento e tantos bairros (85%), se formassem um país, este seria o 2º país com maior desigualdade no mundo, à frente apenas da Namíbia.

A Soterópolis tem o maior percentual de desempregados do país, 21%, ou seja, quase o mesmo índice de pessoas que bebem.

Leia a íntegra do texto clicando aqui.

 

 

Escrito por Marcelo às 15h28
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O Quasímodo

 

D’Alessandro, Diego Souza, Fred e Neto Baiano.

 

Eles não são os quatro cavaleiros do Apocalipse.

 

Nem são os quatro pontos cardeais.

 

Nem as quatro estações do ano. 

 

Nem as fases da Lua...

 

Mas são quatro naipes de um baralho.

 

São quatro pesos, quatro medidas do STJD.

 

O poderoso STJD, esse tribunal de quatro letras.

 

Quatro letras diferentes, diga-se.

> 

E quatro que é um número sugestivo.

 

Ficar de quatro, fazer o quatro, cair de quatro.

 

Falar aos quatro ventos...

 

D’Alessandro, Diego Souza, Fred e Neto Baiano.

 

Do Inter, Palmeiras, Fluminense e Vitória, respectivamente.

 

Clubes de quatro estados diferentes.

 

São quatro boleiros, quatro sentenças.

 

Fred do Flu parece ter quatro costados. Deu tapa em atleta do Goiás e foi absolvido. 

 

Diego Souza fez o diabo a quatro, um “show”, e recebeu gancho “pré-datado”, que não será pago.

 

D’Alessandro, que correu bisonhamente atrás de um adversário, chamando-o para a porrada, pegou só cinco jogos.  

> 

Já a cuspida de Neto Baiano num atleta do Vasco pela Copa do Brasil “rendeu” uma punição de oito jogos - na Série A!

 

Quatro naipes diferentes.

 

Quatro pesos, quatro medidas.

 

Fora das quatro linhas.

 

O STJD parece quatro de paus.

 

Mas é um Quasímodo do futebol.

 

O monstro de Notre-Dame de Paris.  

Escrito por Marcelo às 15h07
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A escada "volante"

Para mim e para todo baiano que mora distante, viajar para Salvador é teclar um F5 no dialeto, é fazer uma atualização no sotaque, é ressuscitar palavras prestes à extinção no nosso vocabulário. Fiz agora uma viagenzinha de três dias, dias de semana, e ouvi um bocado de termos que pareciam apagados da memória.   

 

Do aeroporto para o hotel, sorri muito – mas para mim mesmo - quando ouvi um conterrâneo pedir para o motô (motorista) da van debrear. “Debréi”. Outra palavra renascida das cinzas foi “desinsorte”, que eu ouvi de um torcedor do Bahia, funcionário do hotel onde participei de um evento.

 

“Acabou a desinsorte”, pregou ele hoje (quarta) de manhã, em tom de festa depois que o time dele ganhou uma partida e saiu do 12º para o 11º lugar na classificação da segunda divisão. “Qui nada, isso é só inxame puro”, retrucou o funcionário ao lado, que também torce pelo vice-campeão baiano.

 

Mas o que houve de mais significativo e memorável aconteceu no aeroporto, já na hora de voltar. Ali perto dos portões onde é feita a leitura magnética da passagem, uma senhora que parecia perdida me parou abrupta e repentinamente e indagou: “Ô, esse minino, onde fica as iscadas volantes”.

 

Minha Nossa Senhora da Conceição da Praia, quanta naturalidade! Quanta baianidade! Só uma baiana mesmo, e só em Salvador, para uma pessoa abordar um desconhecido dessa forma, com esse jeitinho, com essa espontaneidade toda. Isso, com certeza, só se vê na Bahia, ou melhor, só se vê em Salvador.

 

“Ô, esse minino, onde fica as iscadas volantes”. Ouvir isso me fez ganhar a viagem, após a rotina aeroporto-hotel, depois hotel-evento, depois evento-hotel, depois hotel-aeroporto, às vezes com um taxista, ou melhor, um “taquicêro” no meio do caminho, conversando mais que a nega do leite.   

 

Como cantou o velho Lua, minha vida é andar por este país, para ver se um dia me sinto feliz. Outro dia eu estava sob o calor de 40 graus em Boa Vista, Roraima, no extremo norte; dois dias depois estava sob o frio de 13 graus em Porto Alegre, no extremo sul do país.  

 

De tanto estar hoje num lugar e amanhã em outro, tem dia que eu acordo numa cama de hotel (parecem a mesma cama e o mesmo hotel de sempre) e me pergunto feito mineirinho: “Oncotô?” E abro a cortina para reconhecer a cidade pela janela. Mas, outro dia, abri a janela e não soube onde estava; só fui saber após olhar o menu onde se lia “Recife Palace”.   

 

Bom, são 20 horas desta quarta, 26 de agosto. Estou escrevendo no avião, poltrona 20A, sem nenhum vizinho de vôo para conversar ou atrapalhar. Também não há nenhuma criança falante por perto. E ninguém está com flatulência (deveria ser proibido soltar flatos em avião, mas essa gente, que parece chique e civilizada, no fundo – e na frente - é muito mal educada).  

 

Eu já sabia que Salvador, este lugar que tem o cheiro e o calor de um tabuleiro de acarajé, nesses dias (segunda, terça, quarta), “dias de branco”, parece noite morta, apagada, sem festa, os bares às moscas. É a tal ‘baixa estação’, quando a cidade fica mais devagar que a voz de um Caymmi cansado de axé.    

 

Mas, voltando às “escadas volantes”, na hora que a mulher perguntou, eu sorri baianamente, mostrei a ela onde ficavam as tais escadas, ela agradeceu, até cada qual pegar seu rumo, seguir sua viagem. Quando subi a rampa, ainda dei uma olhadinha para trás, cogitando “ataiar” a mulher e pedir bis - “A senhora pode repetir a pergunta?”.

 

Mas, não. Ela sumiu e eu fui para a sala de embarque com a frase ecoando nos ouvidos, repicando na memória. A expressão “ô, esse minino”, a 'desconcordância' verbal (“onde fica as...”) e o termo “escadas volantes” me fizeram viajar por uma estrada.

 

Viajei pela estrada do tempo, fui até a época de menino, quando o tabaréu da roça foi para capital estudar. Logo de cara, sofri um choque muito grande com a diferença de sotaques, todo mundo falando do meu sotaque “feio”, ridicularizando, zombando.

 

Eu era um tabaréu, sim, mas um tabaréu que lia e se informava, um capiau que viajava o mundo através da leitura. Como defesa, passei a atacar a fala soteropolitana, a corrigir os erros lingüísticos dos novos colegas e amigos, de forma a me fazer respeitado.

 

Quando eles, com pose de sabidos e superiores, me indagavam “De que interior você é?”, eu sorria ironicamente e respondia “Eu sou do interior da Bahia”. E emendava: “O Estado é dividido em capital e interior, acho que você quer perguntar é de que cidade do interior eu sou, não é isso?”.   

 

Quando eles falavam "Bora pa praia", eu dizia que nós só poderíamos ir "à praia". E mais: eu perguntava a eles qual era a terceira cidade mais populosa do país e eles não sabiam que era a própria cidade deles...

 

Depois dessas e de outras, deixaram de mangar de mim, de me chamar ‘tabaréu’, esqueceram o meu sotaque, passei até a ser referência. Ou seja, a leitura me salvou até para a convivência social, para ser aceito e respeitado.

 

Porém, a coisa que mais me deliciava era a escada rolante, que os colegas chamavam “escada volante”. Era incrível, oito em cada dez alunos falavam “escada volante”. E eu não deixava barato: “Não é volante, moçada, é rolante”.

 

Aqui no avião, com a voz da mulher ecoando, fico a pensar: será que aquela senhora é mãe ou avó de algum dos meus colegas de escola e adolescência? Não sei e talvez eu nunca vá saber. Só sei que ouvi-la falar daquele jeitinho me fez lembrar – sorrindo – de um tempo, de um mundo, de uma geração. Com a sensação de estar subindo uma escada rolante.

Escrito por Marcelo às 15h00
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Os sátiros e os dias

Em cidade pequena é quase impossível uma pessoa chamar outra pelo nome e sobrenome. Só se conhece o cidadão como Fulano de Beltrano.

 

No nosso Junco, por exemplo, se alguém procurar Ademilton Saldanha, ninguém vai saber quem é o dito-cujo. Mas se procurar por “Mitinha de Alfrinho” todo mundo saberá dizer quem é o cabra, talvez até diga onde ele mora, o que ele faz e até o que ele deixa de fazer.

 

No Junco, as pessoas me chamam “Marcelo de Terezinha de Adauto”, ou seja, eu não sou só eu; eu sou eu + a velha Terezinha + o velho Adauto. Quando fui estudar em Salvador, ainda na adolescência, os novos colegas ora me chamavam Tabaréu, ora me chamavam Marcelo de Sátiro Dias.

 

Já em Brasília, para onde me mudei de mala e cuia, uns me chamam Poeta, outros me chamam Baiano, mas a maioria me chama mesmo é de Marcelo Torres, pura e simplesmente assim...

 

Leia a íntegra do texto clicando aqui.  

 

Escrito por Marcelo às 14h44
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Deus não joga futebol

Se Deus jogasse futebol, seria um artilheiro, matador, impiedoso.

Não perdoaria zagas nem goleiros adversários.

Na busca pela vitória, Deus derrubaria oponentes e cometeria faltas, inclusive penalidades máximas.

Deus atuaria sempre muito ofensivo, chutando bastante, atirando mais que o diabo.

O diabo? Ora, o time do diabo seria um saco de pancadas, só tomaria goleada.

Seria pior que o Íbis.

Seu CT seria o quinto dos infernos.

Seus atletas seriam pernas-de-pau, cabeças-de-bagre.

O time do diabo jamais venceria o time de Deus.

Nem sequer empataria uma, uma só partida.

Se o proselitismo religioso ganhasse jogo, bastaria um clube contratar 22 padres ou 22 pastores.

Escalaria 11 titulares e 11 reservas e um bispo como treinador.

Galácticos? Diabos Vermelhos?

Time algum jamais ganharia, nem sequer empataria, com o “Jesus Cristo Futebol Clube”. 

 

Clique aqui para ler o texto na íntegra.  

 

 

Escrito por Marcelo às 14h11
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