Por essa saia-justa o Doutor Paulo Souto não esperava passar.
E foi logo em Miguel Calmon, a cidade que naquela região é carinhosamente chamada de “Calça Curta”.
O ex-governador está fazendo uma campanhazinha de leve para voltar ao Palácio de Ondina. Deve ser boa a vida de governador! Todo ex quer voltar!
Então, no último final de semana, lá se foi o Doutor Souto voando pelo sertão. Baixou em Jacobina, depois em Miguel Calmon, onde foi obrigado a ler uma faixazinha incômoda logo na entrada.
“Gostou da estrada, Doutor Paulo Souto?”, indagava a faixa. Ô pessoalzinho escroto esse de Miguel Calmon. Ô povinho ingrato, pensou o ex-governador.
Não, não foi o povo, até porque não tinha como todo o povo fazer a faixa, nem como todo o povo subir no poste para botar a bendita (ou maldita) pergunta. "Deve ter sido um pau-mandado", pensou.
Bem, não importa a autoria, o fato é que foi uma bela sátira, uma fina ironia, que os políticos precisam ler para baixarem a bolinha. Faixas não existem só para bajular, mas também para meter o pau.
Meteu o pau, foi isso que a faixa fez. Meteu o pau e soltou o veneno da cobra.
A faixa era uma referência à rodovia estadual BA 131, que liga Miguel Calmon a Jacobina, um trecho pequeno, de cinco léguas, que há décadas era prometido e empurrado com a barriga pelos governadores , entre eles o Doutor Souto.
Em junho deste ano o atual governo do estado entregou a obra. E fez a maior zoada, festa, placa, foguete, marquetingue e a zorra toda. E aí os governistas de Miguel Calmon ficaram esperando Souto ir lá.
E Souto foi. Talvez desavisado. E, pela reação dele, a tal faixa pegou o ex-governador de calça curta, ou seja, de surpresa, desprecatado, desprevenido. Pelo jeito, a pergunta ficou pinicando o tempo todo.
“Gostou da estrada, Doutor Paulo Souto?”
Não, ele não gostou. Não, não, não, não, mil vezes não.
E no encontro que teve com os aliados locais, ou seja, umas 100 pessoas, o Doutor Souto se disse abraçado por todo o povo, mesmo que ali não estivesse nem 0,5% da população.
“Sinto que esse abraço carinhoso é um pedido de desculpas pela ingratidão de poucos aqui nessa cidade. Essa emoção suplanta em muito, em muito, a grosseria da faixa da entrada da cidade, que eu quero esquecer por que sei que ela não representa o sentimento do povo dessa cidade”.
Resta saber se a opinião do povo é aquela da faixa ou a do abraço do ex-governador naquela reunião. É uma dúvida que só poderá ser respondida nas urnas, em outubro de 2010.
Enquanto outubro não chega, estou pensando em ir conhecer a cidade de Miguel Calmon, que ainda não tive o prazer de conhecer, mas sempre quis visitá-la. Nos babas da AABB de Salvador, por exemplo, tinha uma galera gente boa de lá.
Eles tinham um time cujo nome era “Calça Curta”, em irreverente homenagem à cidade. Também na AABB de Salvador é realizado todo ano o Encontro de Miguel Calmon na capitá.
Esse apelido Calça Curta eu julgava ser referente a algum delegado calça curta. Mas não, calça curta era uma brincadeira que a turma de Jacobina fazia com os de Miguel Calmon. Eles (os jacobinenses) diziam que vestiam calça comprida, enquanto os vizinhos calmonenses vestiam calças curtas, segundo eles.
Era um jeito de chamá-los de tabaréus da roça, o que era uma injustiça, gozações de vizinhos, hoje já superadas e enterradas.
Aliás, segundo me conta Mazinho, um calmonense nascido no distrito de Mucambo, o lugar passou até a fazer marketing com essa expressão. Tanto é que tem time, banda e festa como esses termos. Uma delas é o Arraiá Calça Curta, que é uma das melhores e mais badaladas festas juninas da Bahia.
Então, em junho eu vou lá, de calça curta, de bermuda, chinelão e chapéu tomar um licor e conhecer aquela gente boa. Se eu encontrar uma faixa perguntando “Gostou da estrada?”, vou dizer que sim (se ela estiver boa) ou não (se estiver ruim), mas não vou me zangar com uma pergunta tão simples.
Afinal, todo polítco, todo candidato a governador deve gostar de ver uma estrada boa , ainda que tenha sido feito por adversário, e mesmo que ele (candidato) só ande de avião.














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