O tipo da coisa


02/09/2009


Pós-Sarney, Pré-Sal

 

 

Escrito por Marcelo às 19h57
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31/08/2009


É muito W para uma cidade só

Se havia algo que me intrigava em Brasília até o dia da reforma ortográfica era o diabo do dáblio, pois aqui nós temos tanto W que parece coisa de Internet – dáblio-dáblio-dáblio-brasília.gov.br. 

 

Tomando-se como base o corpo do avião, o glorioso Plano Piloto, de um lado você tem a parte Leste, com seus eixos começando com a letra L; do outro lado tem-se a parte Oeste, com os eixos começando com a letra W. 

 

Ou seja, por um lado Brasília é L, de Leste. Mas, pelo outro lado, Brasília é W. Porque Oeste é West, sacou? Não é uma coisa tipo wonderful? E tome-lhe W1, W2, W3, W4, W5...É W que não acaba mais. 


Como se não bastasse a banda W do Plano Piloto, ainda temos duas regiões administrativas do DF que possuem W na sigla: Sudoeste, que é SW (de South West), e Park Way, que é PW. E ainda vem aí o Setor Noroeste, que com certeza terá a bigla NW.



É muito W para uma cidade só. É ou não é? E o pior é que, além de ser um maldito fruto de palavras estrangeiras, o diabo do dáblio até esses dias “não existia” no nosso alfabeto oficial, embora fosse (e seja) usado a torto e a direito.



Aí veio a reformazona - que uns chamam de reforma pornográfica, mas que eu prefiro chamá-la reforma dabliográfica - e repôs o K, o Y e o W.  



Quando esse W vinha numa siglazinha inocente, pura e besta, como por exemplo o kw, tudo bem, vá lá que seria muito estranho nós aportuguesarmos a palavra quilowatt para quilouate, embora a orientação sempre fosse aportuguesar, como fizemos com as palavras uísque e sanduíche, que eram escritas com w em sua língua de origem.



Mas Leste é Leste e Oeste é Oeste, uai! Em Brasília, Minas e Bahia, oxente! Aliás, Oeste é mil vezes mais familiar que West. Então, por que usar o W e não o O? E já que era para estrangeirizar, por que a parte Leste, que é East em inglês, não é E?

 

Lembremos que já havíamos abrasileirado Far West para faroeste (Faroeste Caboclo, por exemplo, é título de uma musicazona de Renato Russo, aquele caboclo cantador e compositor que foi criado em Brasília).



E o Sudoeste, hein! A gente usa Sudoeste, escreve Sudoeste, fala Sudoeste (e até Sudoca), mas o nome oficial parece que é mesmo South West, pois a sigla é SW. Pode reparar na sudoestada, tem sempre um SW. Só que a sigla de Sudoeste, em português, é SO - que, aliás, é mais sonora, mais bonita, mais poética.

Além disso, para um bairro cheio de gente solteira, gente só, morar SO seria mais que uma opção de morada, seria um estilo de vida, um estilo de morar, um charme, uma marca.


- Eu sou SO.

- Eu vivo SO.

- Antes SO do que...



O hino do nosso querido e amado Sudoca seria a música "Preta, Pretinha", de autoria de Moraes Moreira e eternizada pelos Novos Baianos. "Só, só, somente só/ Assim vou lhe chamar/ Assim você vai ser". Não seria legal?



E se a sigla SW fosse SO, é certo que tudo que hoje é W seria O. Olha só que beleza: o eixo W2 seria O2, que com certeza seria uma via de ar puro, puríssimo, com muito oxigênio. Já a famosa W3 seria a O3. Em vez desse www, teríamos O2, O3, O4, O5...



Mas, pensando bem, talvez seja melhor mesmo o W. Um número elevado de O em Brasília seria um prato cheio para os bobós que a esculhambam. Iriam chamar Brasília de "Capital do Ó", "Freguesia do Ó". "Essa cidade é um Ó". "É o Ó do borogodó" e por aí vai.



E esse baiano candango aqui botaria a mão no queixo e diria: "Ó paí, ó!" Então, não vou mexer com isso, não. Deixa quieto. Eu jogo a toalha, neste week-end, caindo no walk-over, tomando WO num WC do South West ou da W3 South.

 



Escrito por Marcelo às 15h58
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Por que baiano "come água"?

“Comer água”. Essa enigmática expressão que nós baianos usamos me veio à cabeça ao saber de uma pesquisa do Ministério da Saúde que mostra Salvador como a capital com maior consumo per capita de álcool do país, uma média de 24,9%.

Curiosamente, na Terra da Felicidade (capital do estado da alegria), um quarto da população gosta de tomar umas. É que não se bebe só por alegria e felicidade. Come-se água, também, para esquecer os problemas – que não são poucos.

Salvador tem quatro bairros que, se fossem países, estariam entre os mais ricos do mundo. Por outro lado, os outros cento e tantos bairros (85%), se formassem um país, este seria o 2º país com maior desigualdade no mundo, à frente apenas da Namíbia.

A Soterópolis tem o maior percentual de desempregados do país, 21%, ou seja, quase o mesmo índice de pessoas que bebem.

Leia a íntegra do texto clicando aqui.

 

 

Escrito por Marcelo às 15h28
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O Quasímodo

 

D’Alessandro, Diego Souza, Fred e Neto Baiano.

 

Eles não são os quatro cavaleiros do Apocalipse.

 

Nem são os quatro pontos cardeais.

 

Nem as quatro estações do ano. 

 

Nem as fases da Lua...

 

Mas são quatro naipes de um baralho.

 

São quatro pesos, quatro medidas do STJD.

 

O poderoso STJD, esse tribunal de quatro letras.

 

Quatro letras diferentes, diga-se.

> 

E quatro que é um número sugestivo.

 

Ficar de quatro, fazer o quatro, cair de quatro.

 

Falar aos quatro ventos...

 

D’Alessandro, Diego Souza, Fred e Neto Baiano.

 

Do Inter, Palmeiras, Fluminense e Vitória, respectivamente.

 

Clubes de quatro estados diferentes.

 

São quatro boleiros, quatro sentenças.

 

Fred do Flu parece ter quatro costados. Deu tapa em atleta do Goiás e foi absolvido. 

 

Diego Souza fez o diabo a quatro, um “show”, e recebeu gancho “pré-datado”, que não será pago.

 

D’Alessandro, que correu bisonhamente atrás de um adversário, chamando-o para a porrada, pegou só cinco jogos.  

> 

Já a cuspida de Neto Baiano num atleta do Vasco pela Copa do Brasil “rendeu” uma punição de oito jogos - na Série A!

 

Quatro naipes diferentes.

 

Quatro pesos, quatro medidas.

 

Fora das quatro linhas.

 

O STJD parece quatro de paus.

 

Mas é um Quasímodo do futebol.

 

O monstro de Notre-Dame de Paris.  

Escrito por Marcelo às 15h07
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A escada "volante"

Para mim e para todo baiano que mora distante, viajar para Salvador é teclar um F5 no dialeto, é fazer uma atualização no sotaque, é ressuscitar palavras prestes à extinção no nosso vocabulário. Fiz agora uma viagenzinha de três dias, dias de semana, e ouvi um bocado de termos que pareciam apagados da memória.   

 

Do aeroporto para o hotel, sorri muito – mas para mim mesmo - quando ouvi um conterrâneo pedir para o motô (motorista) da van debrear. “Debréi”. Outra palavra renascida das cinzas foi “desinsorte”, que eu ouvi de um torcedor do Bahia, funcionário do hotel onde participei de um evento.

 

“Acabou a desinsorte”, pregou ele hoje (quarta) de manhã, em tom de festa depois que o time dele ganhou uma partida e saiu do 12º para o 11º lugar na classificação da segunda divisão. “Qui nada, isso é só inxame puro”, retrucou o funcionário ao lado, que também torce pelo vice-campeão baiano.

 

Mas o que houve de mais significativo e memorável aconteceu no aeroporto, já na hora de voltar. Ali perto dos portões onde é feita a leitura magnética da passagem, uma senhora que parecia perdida me parou abrupta e repentinamente e indagou: “Ô, esse minino, onde fica as iscadas volantes”.

 

Minha Nossa Senhora da Conceição da Praia, quanta naturalidade! Quanta baianidade! Só uma baiana mesmo, e só em Salvador, para uma pessoa abordar um desconhecido dessa forma, com esse jeitinho, com essa espontaneidade toda. Isso, com certeza, só se vê na Bahia, ou melhor, só se vê em Salvador.

 

“Ô, esse minino, onde fica as iscadas volantes”. Ouvir isso me fez ganhar a viagem, após a rotina aeroporto-hotel, depois hotel-evento, depois evento-hotel, depois hotel-aeroporto, às vezes com um taxista, ou melhor, um “taquicêro” no meio do caminho, conversando mais que a nega do leite.   

 

Como cantou o velho Lua, minha vida é andar por este país, para ver se um dia me sinto feliz. Outro dia eu estava sob o calor de 40 graus em Boa Vista, Roraima, no extremo norte; dois dias depois estava sob o frio de 13 graus em Porto Alegre, no extremo sul do país.  

 

De tanto estar hoje num lugar e amanhã em outro, tem dia que eu acordo numa cama de hotel (parecem a mesma cama e o mesmo hotel de sempre) e me pergunto feito mineirinho: “Oncotô?” E abro a cortina para reconhecer a cidade pela janela. Mas, outro dia, abri a janela e não soube onde estava; só fui saber após olhar o menu onde se lia “Recife Palace”.   

 

Bom, são 20 horas desta quarta, 26 de agosto. Estou escrevendo no avião, poltrona 20A, sem nenhum vizinho de vôo para conversar ou atrapalhar. Também não há nenhuma criança falante por perto. E ninguém está com flatulência (deveria ser proibido soltar flatos em avião, mas essa gente, que parece chique e civilizada, no fundo – e na frente - é muito mal educada).  

 

Eu já sabia que Salvador, este lugar que tem o cheiro e o calor de um tabuleiro de acarajé, nesses dias (segunda, terça, quarta), “dias de branco”, parece noite morta, apagada, sem festa, os bares às moscas. É a tal ‘baixa estação’, quando a cidade fica mais devagar que a voz de um Caymmi cansado de axé.    

 

Mas, voltando às “escadas volantes”, na hora que a mulher perguntou, eu sorri baianamente, mostrei a ela onde ficavam as tais escadas, ela agradeceu, até cada qual pegar seu rumo, seguir sua viagem. Quando subi a rampa, ainda dei uma olhadinha para trás, cogitando “ataiar” a mulher e pedir bis - “A senhora pode repetir a pergunta?”.

 

Mas, não. Ela sumiu e eu fui para a sala de embarque com a frase ecoando nos ouvidos, repicando na memória. A expressão “ô, esse minino”, a 'desconcordância' verbal (“onde fica as...”) e o termo “escadas volantes” me fizeram viajar por uma estrada.

 

Viajei pela estrada do tempo, fui até a época de menino, quando o tabaréu da roça foi para capital estudar. Logo de cara, sofri um choque muito grande com a diferença de sotaques, todo mundo falando do meu sotaque “feio”, ridicularizando, zombando.

 

Eu era um tabaréu, sim, mas um tabaréu que lia e se informava, um capiau que viajava o mundo através da leitura. Como defesa, passei a atacar a fala soteropolitana, a corrigir os erros lingüísticos dos novos colegas e amigos, de forma a me fazer respeitado.

 

Quando eles, com pose de sabidos e superiores, me indagavam “De que interior você é?”, eu sorria ironicamente e respondia “Eu sou do interior da Bahia”. E emendava: “O Estado é dividido em capital e interior, acho que você quer perguntar é de que cidade do interior eu sou, não é isso?”.   

 

Quando eles falavam "Bora pa praia", eu dizia que nós só poderíamos ir "à praia". E mais: eu perguntava a eles qual era a terceira cidade mais populosa do país e eles não sabiam que era a própria cidade deles...

 

Depois dessas e de outras, deixaram de mangar de mim, de me chamar ‘tabaréu’, esqueceram o meu sotaque, passei até a ser referência. Ou seja, a leitura me salvou até para a convivência social, para ser aceito e respeitado.

 

Porém, a coisa que mais me deliciava era a escada rolante, que os colegas chamavam “escada volante”. Era incrível, oito em cada dez alunos falavam “escada volante”. E eu não deixava barato: “Não é volante, moçada, é rolante”.

 

Aqui no avião, com a voz da mulher ecoando, fico a pensar: será que aquela senhora é mãe ou avó de algum dos meus colegas de escola e adolescência? Não sei e talvez eu nunca vá saber. Só sei que ouvi-la falar daquele jeitinho me fez lembrar – sorrindo – de um tempo, de um mundo, de uma geração. Com a sensação de estar subindo uma escada rolante.

Escrito por Marcelo às 15h00
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Os sátiros e os dias

Em cidade pequena é quase impossível uma pessoa chamar outra pelo nome e sobrenome. Só se conhece o cidadão como Fulano de Beltrano.

 

No nosso Junco, por exemplo, se alguém procurar Ademilton Saldanha, ninguém vai saber quem é o dito-cujo. Mas se procurar por “Mitinha de Alfrinho” todo mundo saberá dizer quem é o cabra, talvez até diga onde ele mora, o que ele faz e até o que ele deixa de fazer.

 

No Junco, as pessoas me chamam “Marcelo de Terezinha de Adauto”, ou seja, eu não sou só eu; eu sou eu + a velha Terezinha + o velho Adauto. Quando fui estudar em Salvador, ainda na adolescência, os novos colegas ora me chamavam Tabaréu, ora me chamavam Marcelo de Sátiro Dias.

 

Já em Brasília, para onde me mudei de mala e cuia, uns me chamam Poeta, outros me chamam Baiano, mas a maioria me chama mesmo é de Marcelo Torres, pura e simplesmente assim...

 

Leia a íntegra do texto clicando aqui.  

 

Escrito por Marcelo às 14h44
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Deus não joga futebol

Se Deus jogasse futebol, seria um artilheiro, matador, impiedoso.

Não perdoaria zagas nem goleiros adversários.

Na busca pela vitória, Deus derrubaria oponentes e cometeria faltas, inclusive penalidades máximas.

Deus atuaria sempre muito ofensivo, chutando bastante, atirando mais que o diabo.

O diabo? Ora, o time do diabo seria um saco de pancadas, só tomaria goleada.

Seria pior que o Íbis.

Seu CT seria o quinto dos infernos.

Seus atletas seriam pernas-de-pau, cabeças-de-bagre.

O time do diabo jamais venceria o time de Deus.

Nem sequer empataria uma, uma só partida.

Se o proselitismo religioso ganhasse jogo, bastaria um clube contratar 22 padres ou 22 pastores.

Escalaria 11 titulares e 11 reservas e um bispo como treinador.

Galácticos? Diabos Vermelhos?

Time algum jamais ganharia, nem sequer empataria, com o “Jesus Cristo Futebol Clube”. 

 

Clique aqui para ler o texto na íntegra.  

 

 

Escrito por Marcelo às 14h11
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