Para mim e para todo baiano que mora distante, viajar para Salvador é teclar um F5 no dialeto, é fazer uma atualização no sotaque, é ressuscitar palavras prestes à extinção no nosso vocabulário. Fiz agora uma viagenzinha de três dias, dias de semana, e ouvi um bocado de termos que pareciam apagados da memória.
Do aeroporto para o hotel, sorri muito – mas para mim mesmo - quando ouvi um conterrâneo pedir para o motô (motorista) da van debrear. “Debréi”. Outra palavra renascida das cinzas foi “desinsorte”, que eu ouvi de um torcedor do Bahia, funcionário do hotel onde participei de um evento.
“Acabou a desinsorte”, pregou ele hoje (quarta) de manhã, em tom de festa depois que o time dele ganhou uma partida e saiu do 12º para o 11º lugar na classificação da segunda divisão. “Qui nada, isso é só inxame puro”, retrucou o funcionário ao lado, que também torce pelo vice-campeão baiano.
Mas o que houve de mais significativo e memorável aconteceu no aeroporto, já na hora de voltar. Ali perto dos portões onde é feita a leitura magnética da passagem, uma senhora que parecia perdida me parou abrupta e repentinamente e indagou: “Ô, esse minino, onde fica as iscadas volantes”.
Minha Nossa Senhora da Conceição da Praia, quanta naturalidade! Quanta baianidade! Só uma baiana mesmo, e só em Salvador, para uma pessoa abordar um desconhecido dessa forma, com esse jeitinho, com essa espontaneidade toda. Isso, com certeza, só se vê na Bahia, ou melhor, só se vê em Salvador.
“Ô, esse minino, onde fica as iscadas volantes”. Ouvir isso me fez ganhar a viagem, após a rotina aeroporto-hotel, depois hotel-evento, depois evento-hotel, depois hotel-aeroporto, às vezes com um taxista, ou melhor, um “taquicêro” no meio do caminho, conversando mais que a nega do leite.
Como cantou o velho Lua, minha vida é andar por este país, para ver se um dia me sinto feliz. Outro dia eu estava sob o calor de 40 graus em Boa Vista, Roraima, no extremo norte; dois dias depois estava sob o frio de 13 graus em Porto Alegre, no extremo sul do país.
De tanto estar hoje num lugar e amanhã em outro, tem dia que eu acordo numa cama de hotel (parecem a mesma cama e o mesmo hotel de sempre) e me pergunto feito mineirinho: “Oncotô?” E abro a cortina para reconhecer a cidade pela janela. Mas, outro dia, abri a janela e não soube onde estava; só fui saber após olhar o menu onde se lia “Recife Palace”.
Bom, são 20 horas desta quarta, 26 de agosto. Estou escrevendo no avião, poltrona 20A, sem nenhum vizinho de vôo para conversar ou atrapalhar. Também não há nenhuma criança falante por perto. E ninguém está com flatulência (deveria ser proibido soltar flatos em avião, mas essa gente, que parece chique e civilizada, no fundo – e na frente - é muito mal educada).
Eu já sabia que Salvador, este lugar que tem o cheiro e o calor de um tabuleiro de acarajé, nesses dias (segunda, terça, quarta), “dias de branco”, parece noite morta, apagada, sem festa, os bares às moscas. É a tal ‘baixa estação’, quando a cidade fica mais devagar que a voz de um Caymmi cansado de axé.
Mas, voltando às “escadas volantes”, na hora que a mulher perguntou, eu sorri baianamente, mostrei a ela onde ficavam as tais escadas, ela agradeceu, até cada qual pegar seu rumo, seguir sua viagem. Quando subi a rampa, ainda dei uma olhadinha para trás, cogitando “ataiar” a mulher e pedir bis - “A senhora pode repetir a pergunta?”.
Mas, não. Ela sumiu e eu fui para a sala de embarque com a frase ecoando nos ouvidos, repicando na memória. A expressão “ô, esse minino”, a 'desconcordância' verbal (“onde fica as...”) e o termo “escadas volantes” me fizeram viajar por uma estrada.
Viajei pela estrada do tempo, fui até a época de menino, quando o tabaréu da roça foi para capital estudar. Logo de cara, sofri um choque muito grande com a diferença de sotaques, todo mundo falando do meu sotaque “feio”, ridicularizando, zombando.
Eu era um tabaréu, sim, mas um tabaréu que lia e se informava, um capiau que viajava o mundo através da leitura. Como defesa, passei a atacar a fala soteropolitana, a corrigir os erros lingüísticos dos novos colegas e amigos, de forma a me fazer respeitado.
Quando eles, com pose de sabidos e superiores, me indagavam “De que interior você é?”, eu sorria ironicamente e respondia “Eu sou do interior da Bahia”. E emendava: “O Estado é dividido em capital e interior, acho que você quer perguntar é de que cidade do interior eu sou, não é isso?”.
Quando eles falavam "Bora pa praia", eu dizia que nós só poderíamos ir "à praia". E mais: eu perguntava a eles qual era a terceira cidade mais populosa do país e eles não sabiam que era a própria cidade deles...
Depois dessas e de outras, deixaram de mangar de mim, de me chamar ‘tabaréu’, esqueceram o meu sotaque, passei até a ser referência. Ou seja, a leitura me salvou até para a convivência social, para ser aceito e respeitado.
Porém, a coisa que mais me deliciava era a escada rolante, que os colegas chamavam “escada volante”. Era incrível, oito em cada dez alunos falavam “escada volante”. E eu não deixava barato: “Não é volante, moçada, é rolante”.

Aqui no avião, com a voz da mulher ecoando, fico a pensar: será que aquela senhora é mãe ou avó de algum dos meus colegas de escola e adolescência? Não sei e talvez eu nunca vá saber. Só sei que ouvi-la falar daquele jeitinho me fez lembrar – sorrindo – de um tempo, de um mundo, de uma geração. Com a sensação de estar subindo uma escada rolante.